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BRASIL, Sudeste, VITORIA, Mulher, de 20 a 25 anos



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.: Entrego-me a uma espécie de invasão :.
 


O Homem que não Sentia

 

 

Não, ele não é um “homem blefe”. Tão pouco um farsante. Não, ele também não é negativo, talvez tenha doses de antagonismo, ambigüidade, incógnitas; o que o tornam no mínimo positivamente curioso.

 

Para falar dele não se pode usar o coração, é necessária observação racional e um pouquinho de admiração, ou apenas curiosidade. Não quero fazer com que o amem ou odeiem. Cada qual com a sua concepção final. O meu intuito é “destrinchá-lo”.

 

Logo que o conhecemos, ele aparenta ser um tipo comum masculino... isso até ele dizer: “Não se apaixone, não se envolva demais”. Banho de água fria? Blefe? Que nada. Esse é o seu modo mais peculiar de ser estimulante e envolto numa aura de mistério. E nós nos perguntamos intrigados porque esse homem não sente, não se envolve, não se doa. Para alguns esse é o fim da linha: que puta homem egoísta! Para os persistentes é só o início da descoberta de algo deliciosamente obscuro por trás da sua armadura quase intransponível.

 

O homem que não sentia caminha como se estivesse em campo minado. Diverte-se com os joguinhos que jura não gostar. É sagaz. Inteligente. Ao mesmo tempo em que parece palpável... pluft! Vira pó e cai entre os dedos. Audacioso, não?

 

O vinho contém segredos que o definem bem. Quando entramos na descoberta da bebida mágica, o sabor inicialmente parece simples. Não temos tato nem experiência para apreciá-lo. Como leigos, não temos noção da sua profundidade. Com sucessivas degustações descobrimos cantinhos recônditos, novos sabores, diferentes cores, cheiros suaves e consistentemente inebriantes. Obtemos sensações diversas a cada gole. O seu sabor pode ser em diferentes faces: doce, seco, açucarado, forte, singelo, ácido e leve.

 

Como o vinho, este homem se revela aos poucos. Aprecia-se aos poucos. Descobre-se aos poucos. Esse é o motivo por logo ter justificado que ele não é um “homem blefe”. No início ele se auto protege e assusta, para posteriormente em doses homeopáticas tornar nua sua sensibilidade camuflada. Tornar transparente sua carência tímida e desajeitada. Tornar visível seu olhar carinhoso. Tornar verdadeiras suas demonstrações de carinho. Tornar espontâneo seu lado moleque. Tornar-se um vício.

 

Nada de divagações e vislumbres. Não o inclua em seus sonhos catatônicos. Ele não é o homem perfeito. Nem um modelo a ser seguido. Ele é singular. Seu jeito único que o faz um ser admirado. Ele é um risco, uma catástrofe, um contraste, uma aventura, uma descoberta, um clímax, um bem, um mal... uma antítese.

 

O homem que não sentia, sentiu. Por um instante a armadura caiu. Experimentou a fragilidade da sensibilidade e se recompôs. Vestiu cada peça novamente, desafiando a vulnerabilidade da sua razão.

 

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 23h32
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Dentro de uma cabeça aparentemente fresca,  inúmeras palavras transitam, se esbarram e brigam. Cada qual clama para ser valido e concretizado o seu significado nas ações cotidianas das escolhas. Num painel mental que mais parece palavra cruzada, tudo se confunde, perde o teor real e se esvai.  Deixando assim as decisões para o dia seguinte, afinal, nada ficou esclarecido dentro das incógnitas. Numa briga de razões, nada ganha sentido.

 

A reciprocidade discute com a prioridade. O juntar e separar, antônimos, não chegam a um ponto em comum. Como relâmpagos cruzam-se a vontade, o sentimento, a lembrança, o perto, a saudade, o desapego, a falta, a conversão e a indiferença. Como chamarizes para a realidade, a incerteza, o futuro, o imutável, o estar, ir, ficar, o longe, apego, a escolha, dão show à parte. O senhor dessa desordem existente – o medo!

 

Num emaranhado de hipóteses, deixa estar. O medo tem o poder de atar as possibilidades e nublar o futuro. A comodidade confortavelmente parasita sem culpa, minando a coragem, embaçando o novo. Os pés fincados impedem o primeiro passo em direção ao risco aventureiro. O cheiro de novidade provoca náuseas – o medo!

 

O charme da inflexibilidade, fantasiada de auto-afirmação, parece dotar-nos de certo poder: o poder de endurecer. Endurecidos, aparentemente seguros, enfeitamos nossa muralha. Agachados nos escondemos atrás dela, tampamos os ouvidos, apertamos os olhos e, alheiamente (sobre)vivemos.

 

Como meros observadores com as forças dissecadas e o coração transpassado por um filete gélido cortante, passamos pela vida assistindo ao duelo entre razão e coração. À briga entre medo e coragem.  O clássico viver e existir. O roteirista dessa história clichê – o medo!

 



Escrito por Donna Oliveira às 15h12
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Tecendo a mortalha

 

O meu sorriso aberto e brilhantemente metálico de repente é empalidecido. Os meus suspiros, sem explicação, arrancam-me todo o ar e eu desesperadamente me contorço, esperneio e sufoco, desfalecida. Os meus olhos outrora ilumunados perdem vida, morrem opacos. O suor dos meus dedos entrelaçados seca, minhas mãos racham, meus cabelos apodrecem e minha garganta fecha. Estou em decomposição.

 

A minha alma cansada se esvai de mim, me deixando ali, fria e abandonada. Da morte uma lágrima quente, cheia de vida,  atrevida, pula os meus olhos gélidos. É dor.

 

A dor quer me aquecer para que eu volte à vida. Mas só existe vida com dor? A vida me expulsou porque terminantemente desafiei tudo o que me tornava doente. Eu não quero sobreviver num leito. Eu não quero chorar para me encher de vida. Eu não quero me sentir depressiva quanto aos meus impulsos, para obter o título de corajosa  que enfrentou seus medos, a destemida que viveu intensamente, e agora padece deteriorada por não ter tido êxito em suas investidas.

 

Se isso é viver, eu prefiro extinguir. Quero ser indolor, intocável e intrasponível. Quero a armadura mais poderosa e o coração mais duro. Quero os olhos mais intransigentes e as mãos mais ameaçadoras. Quero proteção.

 

 O medo me corroeu por dentro. As minhas lágrimas salgaram o sangue que circula em minhas veias. Fiquei indefesa. Mas, num ímpeto vitorioso, eu recusei tudo o que dói. Eu recusei sentimentos, o frio na barriga e o tremor do meu corpo. Eu recusei a excitação e a esperança. Eu recusei a ilusão e o desejo. Recusei sentir.

 

Minhas defesas já estavam muito enfraquecidas. Meu corpo não agüentava mais nadar contra a maré. Agora não sinto mais dor e estou distante de tudo o que dói. Me rendi. Vesti a mortalha. Perdi o jogo. Senti. Felizmente a morte me sobreveio, tornando-me alheia à todo tipo de calor que me destrói.

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 01h45
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Aleatórios de mim

 

 

 

Eu escrevo para esvaziar de mim.

Para não explodir.

Para não jorrar.

Para não me desfazer.

Para não me render.

 

          ***

 

Eu preciso te ver ofegante, pra me sentir revigorada.

Eu preciso te ver suado, pra me sentir fresca.

Eu preciso do teu beijo na testa, pra me sentir limpa.

 

         ***

 

Estou a léu, sorrindo desajeitada. Brincando desajeitada. Caminhando desajeitada... sendo feliz desajeitadamente.

 

          ***

 

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 17h54
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Meus pés, envoltos pela atmosfera, não tocam mais o chão. Para aumentar minha sensibilidade, cerro os olhos bem apertados, estico os braços e abro as mãos. Vôo.

 

No momento em que dou o primeiro passo, aquele do risco inicial, um friozinho arrepiante me percorre todo o corpo.  Sinto-me revigorada. Tomo coragem e ousadia como lema.

 

Visto um vestido leve para embelezar o meu salto de libertação dos paradigmas. Olho pra você, profundo. Envolta por uma totalidade, seduzida pelo novo e, descalça como num ritual sagrado, estranhamente feliz lanço-me.

 

Enquanto corto o ar, sinto o aroma da nova experiência e o frescor da minha audácia. Contenho uma leveza na alma. As bactérias do ar me acariciam. O vento me renova. O universo me acolhe. Dou piruetas e cambalhotas feito criança – menina mulher. Sorrio para o meu momento. Sem perder o rumo, de olhos bem fechados, me transporto a você.

 

Meus pés, envoltos pela atmosfera, não tocam mais o chão. Para aumentar minha sensibilidade, cerro os olhos bem apertados, estico os braços e abro as mãos. Vôo... e caio. Espatifo-me em você. Não enxerguei a tempo que a sua profundidade era na verdade uma depressão e os seus olhos dois abismos obscuros.

 

Você é uma armadilha que me seduziu, me capturou e quando, na minha aventura, resolvi abrir os olhos, já havia caído. Estava encolhida no chão, machucada, juntando os cacos do que outrora era eu, quando caminhava com os pés protegidos no chão e os olhos abertos no caminho – lúcida.

 

Recomponho-me. Reúno forças das dores. Emplasto as feridas. Caqueticamente subo os escombros do abismo e chego ao conforto do enclausuramento da minha nova e velha prisão. Protegida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 20h19
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Cara menina

 

O acontecimento que a cercou fez-me refletir sobre os rumos que a vida toma e os sustos que ela nos dá. Ela, a vida, pregou mais uma de suas peças, e esta gostaria de chamar de “livramento”.

 

A morte tentou te tocar. Fez sombra no teu caminho. Bravamente tu a venceste. Agora carrega contigo seqüelas dessa batalha. Por um triz você quase emudeceu... igualmente como estamos emudecidas  uma com a outra há mais de um ano. Se tivesse partido menina, o remorso tomaria conta de mim. Não sei em que errei. Só sei que erramos. Essa sensação não é confortável, por isso, peço perdão.

 

Vivíamos fases distintas. Era tudo tão embaralhado dentro de nós... meus olhos se turvaram e não mais enxerguei você. Com tudo isso nosso elo de amizade se quebrou, e felizmente a “quase morte” o integrou novamente.

 

As marcas que teu corpo recebeu não são motivos de complexo e tristeza, são os sinais do livramento que Deus te deu. Ele com sua misericórdia infinita poupou sua alma. Vamos menina! Veja pelo lado bom.

 

Com esse fato, fiquei indagando a respeito do intuito da “quase morte” física. E resolvi acreditar que ela é um puxão de orelha em pessoas como nós, que achamos que temos a vida toda para pedirmos perdão, a vida inteira para tentarmos perdoar... a vida toda para nos enganarmos. Não aparamos as arestas e os fiapos em nossos corpos, que negligentemente furam a nossa alma. Vivemos assim: adiando resoluções de questões pendentes e evitando mudanças. Isto porque o medo e a acomodação adoram parasitar em nós, nos levando a um miserável empobrecimento humano. Acentuando a nossa fraqueza e sedução pela auto-enganação. A “quase morte” é uma alerta na tentativa de sarar essas deficiências que nos assolam.

 

Antes que fatalidades aconteçam para nos sacolejar; vamos agir! Não precisamos de feridas para despertar. Não precisamos da morte para avaliar. Não precisamos da ação divina para aprender a perdoar. Nego-me a sentar, esperar e comprovar que todo mal traz um bem.

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 01h05
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Fragilidade fragmentada

 

Vasculho incansavelmente. Procuro avidamente. Olho ao redor. Os cantinhos obscuros não me passam despercebidos. Adentro o labirinto por onde passa o esgoto do esquecimento que invariavelmente vem à tona. As lembranças, recordações. Nada encontro. Nada sólido. Nada palpável. Queria algo de mim nesse texto, mas “o nada” encontro; o que já é alguma coisa. Ou nada?

 

Falta algo realmente substancial circulando em mim. Isso funciona como um imã para o abstrato. O abstrato que piso. A imaginação que vivo. A minha realidade não realizada. Isso pode chegar confuso até você. Perdão. Nada sólido aqui. Então, tento colher os fragmentos do que seria eu e encontro apenas hipóteses, adjetivos, teses... nada de comprovações, só suposições. O que isso significa? Também não sei.

 

Nada aqui é literário. Mesmo sabendo que essa seria a idéia. É uma tentativa frustrada de desabafo. E o que sai de mim é o nada fragmentado brincando de quebra-cabeça com meu ser. Essa brincadeira cai bem, o nome diz tudo. Eu só quebro a cabeça e isso parece me divertir. Nem sei o que me diverte. Só sei o que me cansa, e o enfado gosta de dar as caras para que eu não esqueça que ele gosta muito mim. E eu o cumprimento e não o rejeito, aceito - venha, já que sazonalmente faz parte de mim.

 

Os sorrisos. As brincadeirinhas infantis tão sempre iguais. Os desejos repelidos. A dor imprimida incolor nas ações. Os joguinhos de sempre. As auto-afirmações cambaleantes. As certezas volúveis, mesmo que indesejadamente. O não controle de nós mesmos. Marcas que se negam a desaparecer. A mesmice de capa nova, disfarçada. Seria essa a constituição? Constituição do nada que me reveste, que me cega e faz com que eu não veja, apenas apalpe no escuro a sombra da minha imaginação.

 

Nada claro. Tudo escuro a ponto de não me enxergar. Mais uma vez: perdão. Eu só entrei dentro de mim buscando algo que me fizesse ser mais e deparei-me apalpando a realidade da desordem existente aqui. Mergulhei dentro de mim e encontrei o vácuo. Isso me trouxe tristeza.

 

 

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 16h01
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Um ventinho quente e úmido toma o meu ouvido. Uma sensação áspera toca o meu delicado pescoço. Um lívido braço me envolve. Um corpo longilíneo laça-me de tal forma que parece me fundir. Movimentos leves e cuidadosos me acordam de uma espécie de devaneio. Teus pés nos meus. Tuas pernas entre as minhas. Dedos entrelaçados. Corpos juntos... almas distantes.

 

O giro do ventilador toca a nossa sonata, que se contrapõe com o ritmo da tua respiração constante. Os compassos do teu coração dão o toque especial à banda formada por toques, suspiros, ruídos e pensamentos. O abajur de luz vermelha proporciona o efeito meia-luz ao nosso show.

 

 - Show ou guerra?

 - Teatro ou jogo?

 - Seríamos nós um espetáculo?

 

A tua parede branca nos assiste impassível. Os teus livros nos observam emudecidos. Os olhos do retrato dizem algo que não desvendo. O crucifixo remete-me à santidade não existente entre nós, seres carnais. A cama, o criado-mudo, a porta, o chão talhado em madeira, os jornais espalhados, o resto da essência das outras mulheres que por ali passaram – e passam, o tic tac do relógio, o som badalado em minha cabeça, todos eles formam o público da nossa desenvoltura.

 

O dia cai sobre as folhas que farfalham ao lado da tua janela. Uma visão embaçada do mundo exterior paira sobre meus olhos. O sol grita e nós, distantes, absortos em nós mesmos, nos aninhamos e adormecemos.

 

E por um triz sonhamos... e por um triz nos absorvermos... e por um triz quase existimos.



Escrito por Donna Oliveira às 12h12
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O ar  quente e úmido é tomado por um odor confuso e sufocante. Uma mistura de  cevada,  álcool, vodka, suor,couro, monóxido de carbono e peles. Diversos aromas se fundem num só: nauseante.

 

A melodia ambiente é composta por buzinas, músicas diversas, gritinhos exultantes, batidas de corações extasiados, discussões e melôs de guerra bestiais.

 

Engarrafamento infernal. Pessoas saindo dos carros continuam a trajetória a pé. Ambiente confuso... indescritível. Uma massa de jovens se encaminha desorganizadamente à mesma celebração.

 

O que levaria tantos a se reunirem animadoramente em um número assustador? A resposta é óbvia:

 - O culto à futilidade.

 

Alienados com as modinhas capitalistas que visam lucros dessa geração desenfreada, a juventude segue sem singularidade a vulnerabilidade de suas ações. Acham-se obrigados a digerir todos os tóxicos que lhes são lançados e vivem com a eterna e famosa crise de identidade – isso quando resolvem parar para olhar para dentro de si.

 

Num aglomerado humano onde mal é possível fazer um movimento de cabeça por causa da insuficiência de espaço físico, lá estão eles, mãos erguidas, corpos roçando, suores se misturando; cantando a inutilidade.

 

Eis a sua composição: desejos inúteis, sonhos fúteis, crenças indefinidas, instabilidade, falta de propósito, sentimentos contraditórios e modismos.

 

Tom Zé acredita na mudança. Levado por uma pesquisa feita pela MTV que revelou uma forte tendência do jovem para o consumismo, hedonismo, fuga da responsabilidade social ou solidariedade, resolveu lançar um cd numa espécie de intimato à essa mocidade para um retorno às raízes.

 

Vou ouvir incansavelmente "Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício", para ver se me convenço de que existe solução para o provável futuro pífio da minha geração perdida.



Escrito por Donna Oliveira às 14h48
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Você acha que me conhece. Talvez seja uma “quase verdade”. Já notou a incógnita na minha testa? É puro charme para não parecer vulnerável. Comigo dois mais dois é igual a quatro, pena que contigo é cinco. A minha interrogação tatuada é reflexo da que você carrega na alma. Teu tipo intransponível me causa receio e uma certa vitalidade para descobrir até onde esse coração degela – será que degela?



Esse jogo de palavras diretas, claras e grotescamente sinceras doem meu ouvidos. Eu tenho minha parcela de sensibilidade, sabia? Eu preciso dizer pra você perceber. Tão perto e tão distantes, juntos e separados... porque a gente é assim?



Eu lhe dou metade de mim, você me dá a sua metade e assim brincamos de massinha de modelar, criando coisas deformadas, porque a gente não sabe fazer e ser por completo.No fim das contas, falta algo, falta doação, falta coragem e sobra verniz, tinta e um sorriso pintado nesse nosso joguinho de quase se envolver.



É isso que somos: um quase. Como bem disse Veríssimo: “... é o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata, trazendo tudo que poderia ter sido e não foi”.



E vivemos assim: com o sabor dos deuses deslizando em nossa boca ao som do rock progressivo, sempre na iminência de um tchau. Sempre com o radical friozinho na barriga por poder ser a nossa última vez e logo um até nunca mais.



Se viver é expectativa meu bem, aqui se esvai meu último fôlego de vida.



Escrito por Donna Oliveira às 02h49
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Em homenagem aos meus amigos do Maria da Graça... JJ e a Jaque, que nos contou sobre O Dia da Doninha. (Maria da Graça é uma brincadeira da qual participamos, e os dois dizem que vão patenteá-la,hah)

 

 

A vida é uma incógnita. Andamos alienados com nossas interrogações, aguardando o grande momento em que um dia tudo em nós e no mundo será desvendado.

À procura de segurança, tentamos desvendar o outro. Queremos saber em que chão pisamos... nossos traumas interiores nos impedem a ousadia. Manias! Queremos ler pensamentos, queremos entrar no outro, sufocar seus desejos, descobrir os seus planos e acabar com o mistério... tudo pela infeliz necessidade de se sentir seguro e sólido. Não temos paciência para  possibilidades. Tudo tem que acontecer conforme planejamos e os que estão ao redor têm que brincar de adivinhação para entrar nas nossas peripécias diabólicas. Adoramos ser misteriosos. É excitante. Nós podemos ser...  mas os outros, não!­

Ser metódico é virtuoso e, tantos métodos para o bem estar têm nos levado à mesmice: orgasmo só na mesma posição.Café só na caneca verde. Dormir só com o  travesseiro de estimação. Homem bonito é o bombado. Mulher boa é a gostosa. Sentar só no puff rosa. O cabelo tem que ser o que a moda dita,  etc.

Temerosos, não nos lançamos ao novo, ao desconhecido, ao improvável. Claro! Os padrões nos dão subsistência suficiente para que adequados a eles, tudo sairá conforme esperamos - assim nos enganamos.

 

Existimos como  a lenda americana “O dia da Doninha”: acordamos em dias exatamente iguais e tentamos, desesperadamente, procurar um meio para que possamos mudar o seu curso  e assim, sairmos da maldição - a mesmice.

 



Escrito por Donna Oliveira às 17h47
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Odeio

 

 

 

Saturei!  Preciso dizer:

 

 - Eu odeio a Leona!

 

Não é nem o cabelo em si  ou  os brincos da personagem  que vendem em bancas por um real, ou as lojas que nos oferecem seus macacões colantes, como se todos tivessem aquele corpo escultural... mas sim a lavagem cerebral que os cabelos da personagem causam.

 

Antes, cabelos loiros totalmente claríssimos e branquelos eram moda. De repente, tornou-se vulgar o visual. Agora, Carolina Dieckman, com seu personagem, volta com o look e tá ditado: quer andar na moda? Use o cabelo igual ao da Leona.

 

Não estão interessadas se combina com seu estilo, idade, ou tom de pele. As pessoas têm uma necessidade absurda de sentirem-se atualizadas, modernas, “por dentro” do mundinho ditador da minoria esquelética.

 

A neurose quanto a serem aceitos é tão grande que, topam tudo para serem “atuais”. Falta senso do ridículo e sobra coragem para interpretarem seus personagens do cotidiano.

 

Realmente, a velha teoria da comunicação, a Teoria Hipodérmica, faz sentido: os meios de comunicação adestram as pessoas. Eles jogam o  lixo e elas, digerem. É assustadora a  falta de singularidade e identidade -  volubilidade – isso está me dando asco!

 

Parecemos robozinhos, igualmente programados para a unanimidade idiota. Programados a não pensar, não se opor, não hesitar...

É muito mais cômodo cultivar a falta de profundidade, do que, mergulhar dentro de si... e descobrir que tem um curto circuito acontecendo, podendo te levar à morte... ao nascimento da descoberta de si mesmo.

 

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 03h09
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O Letreiro

 

 

Entre uma delegacia da Polícia Militar e um hospital público, ele surge imponente. Grande. Resistente. Gélido e acalentador.

Em meio a um bairro de periferia, em que a comunidade vive segregada da sociedade, ele está ali, simbolizado por um objeto metálico; trazendo vida!

As pichações que ornamentam a pedra às suas costas, não capturam atenção. É tua somente.

Paro no tempo quando, a caminho da faculdade, deparo-me contigo. Sorrio. É este o teu intuito então: arrancar sorrisos esperançosos.

Talvez você, como aprendemos a desejar, exista somente nos nossos sonhos mais delirantes. Talvez o aço o representou bem -  frio e duradouro.

Independente das formas que adquira, o admiro, seja você lá o que for. Tu manifesta-se   independente de credo, raça, cor, religião,opção sexual... todos o almejamos igualmente. São em raras horas como estas em que assumimos a unanimidade, que neste caso, não é burra – assim espero!

Não sei quem o definiu bem, será Closer ou o Apóstolo Paulo?

Incógnitas.

Elas sempre me acompanham... mas, ainda chego ao fim desse mistério.Nem que eu tenha que me lançar naquele letreiro, estraçalhá-lo... para que de lá flua o que ele soletra.

 

 

 

 

 

 

 

                                                                           

 

 

 

 

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 02h03
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O nada me alimenta.

A interrogação me acompanha.

A minha sombra me tira da solidão.

O espelho não revela: quem sou eu?!

Os vermes comem meu coração. Antes que eles cheguem à minha razão – Socorra-me!

Dramático?

Sim.

A vida é um drama do qual faço parte, contribuindo com meu talento de atriz.

Cacos e improvisos são proibidos. Tenho que seguir corretamente o roteiro.

Devo parecer certa, resolvida, sólida, forte... É o papel que escreveram para mim.

Não querem que eu vomite sinceridade sombria.

Manipulação.

Sigo a manada do fantoche, com a coleira no pescoço,dizendo “sim sim”, “não não”.

 

 

 

                                                                      

 

 



Escrito por Donna Oliveira às 02h13
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Minhas divagações 

Todo universitário ferrado que se preze, anda de ônibus.Faço parte dessa prole.Acreditem não é perca de tempo. É terapia.Um verdadeiro laboratório humano.Quando não estou alimentando meu vício da leitura, estou assistindo. Isso mesmo, assumo a posição de espectadora da vida humana .

Tudo começa quando entro na fila do 518 e quase sempre tem um indivíduo pra me chamar de gostosa. Não sou gostosa, não tenho a obrigatória bunda grande e minha vida sedentária tem me deixado mole.

Entro! Sento no último lugar.

Uma garotinho, escurinho, com seus oito anos de idade, quando a porta de trás estar para se fechar, pula dentro do ônibus, sorridente. Sorri para os colegas que ficaram de fora. Garoto esperto! É o que o seu sorriso deduz, afinal, ele entrou no ônibus sem pagar, passou a perna no motorista, passou a perna em mim. Qual será o destino daquela criança que a sua agilidade em enganar o faz sentir-se superior?

Indago quando uma guria senta-se ao meu lado. Ela abre a bolsa e pega seu livro de banca de revista, aquelas série estilo "Sabrina". Romances melosos e utópicos. Ela lê ávidamente. Tento dar uma espiada, ela censura.Apenas descubro que o título traz a palavra "sedução". Ela suspira, reflete, volta a ler, chupa uma bala. Provavelmente pensa no príncipe encantado. Divago... eu já sonhei assim também. A realidade sobreveio, eu a acolhi serenamente. Será que esta menina receberá tranquilamente a notícia que homens perfeitos não existem ? Cavalos brancos então: piorou!

Ele pula sobre a roleta. Senta-se na minha frente. Faz um frio danado. Venta muito. Ele abre a janela. É criança ainda. Traz algo na mão. De repente, sinto minha cabeça doer. Cola! Cheiro de cola. Ele cheira cola à vista de todos passageiros. Reclamo. Absurdo! Saio de perto do cheiro impregnado. Meu Deus, apenas um menino.Ele se revolta, faz sinal. O motorista pára. Ele se dirige à porta, gira para mim e grita: Loira burra, loira burra!

O "hoje" está assim, gerando garotas iludidas com as velhas fábulas, a espera das "fadas madrinhas" para as arrancarem da dura realidade vivida em casa; meninos ainda ignorantes, que picham o nome PCC nas fachadas, possíveis futuros recrutas de facções criminosas. E desiludidas como eu, que precisa parar de assistir ,e atuar; na tentativa de que esperança realista chegue à vida dessas pessoas.



Escrito por Donna Oliveira às 02h24
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