Falecido
Andar pelas ruas da cidadezinha dos meus pais me lembrou você.
Me sinto uma tonta mergulhada em lembranças. Passar por onde um dia andamos juntos me fez recordar que já se faz quase um ano. Fico admirada como o tempo passa rápido.Tão rápido que não sentir, porque a única coisa que sinto desde que acabou nossa história são as feridas que ficaram em mim.
Meu corpo ainda tem as manchas do seu toque, minha pele ainda sangra o arranhar da sua barba por fazer, minha boca recorda teu gosto salgado e sua língua exigentemente macia.
Pela primeira vez voltei à nossa cidade sem sentir saudades da gente. Sem sentir ódio do odor ambiente.Sem o tremor ante a possibilidade da sua presença. Sem vontade de você e tão pouco raiva de quem te tem hoje.
Sinto-me feliz. Não mais suja como outrora. Porque te querer me dava a sensação de sujeira, de ignorância e tolice.Uma espécie de inocência com misto de pecado. Me sentia corroída por você, mastigada aos poucos. Como se estivesse sendo devorada, mas não saboreada.
Hoje suas mãos não me tocam. Isso não me tornou menos suja, menos tola ou menos pecadora, tornou-me livre.
Livre pra te rejeitar sem titubear. Livre pra não te desejar. Livre pra não te querer e me orgulhar quando você passa por mim de cabeça baixa, pensando sabe Deus o quê.
Não é defesa, tão pouco são palavras polidas de uma mulher forte. Sou frágil, boba, neurótica, metida a insensível e madura.No fundo sou uma medrosa com medo do amor e seu efeito colateral.
Dá-me certo gostinho de superioridade dizer que encontrei beijo melhor que o teu, boca mais macia, mãos mais acalentadoras, ouvidos mais atentos e peitos mais seguros.
Não que eu seja a melhor ou incomparável,porém,duvido que tenha dado risada mais gostosa do que quando estava comigo.Duvido que tenha se preocupado tanto em emagrecer seus 15 kg para aparentar mais novo e desejável. Duvido que outra fez com que comprasse um boné branco, só porque achava que você ficava jovial. Duvido que tenham feito você remexer em todos os seus DVDs procurando a música ideal pra marcar uma história finita.
Verdadeiramente não duvido de nada. Meu ego infla e me tampa a visão. Não vejo você e nem eu mesma.
Está tudo escuro, as recordações somem da minha memória... mas, o cheiro das ruas eu ainda consigo enxergar.
Escrito por Donna Oliveira às 10h59
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