Minhas divagações
Todo universitário ferrado que se preze, anda de ônibus.Faço parte dessa prole.Acreditem não é perca de tempo. É terapia.Um verdadeiro laboratório humano.Quando não estou alimentando meu vício da leitura, estou assistindo. Isso mesmo, assumo a posição de espectadora da vida humana .
Tudo começa quando entro na fila do 518 e quase sempre tem um indivíduo pra me chamar de gostosa. Não sou gostosa, não tenho a obrigatória bunda grande e minha vida sedentária tem me deixado mole.
Entro! Sento no último lugar.
Uma garotinho, escurinho, com seus oito anos de idade, quando a porta de trás estar para se fechar, pula dentro do ônibus, sorridente. Sorri para os colegas que ficaram de fora. Garoto esperto! É o que o seu sorriso deduz, afinal, ele entrou no ônibus sem pagar, passou a perna no motorista, passou a perna em mim. Qual será o destino daquela criança que a sua agilidade em enganar o faz sentir-se superior?
Indago quando uma guria senta-se ao meu lado. Ela abre a bolsa e pega seu livro de banca de revista, aquelas série estilo "Sabrina". Romances melosos e utópicos. Ela lê ávidamente. Tento dar uma espiada, ela censura.Apenas descubro que o título traz a palavra "sedução". Ela suspira, reflete, volta a ler, chupa uma bala. Provavelmente pensa no príncipe encantado. Divago... eu já sonhei assim também. A realidade sobreveio, eu a acolhi serenamente. Será que esta menina receberá tranquilamente a notícia que homens perfeitos não existem ? Cavalos brancos então: piorou!
Ele pula sobre a roleta. Senta-se na minha frente. Faz um frio danado. Venta muito. Ele abre a janela. É criança ainda. Traz algo na mão. De repente, sinto minha cabeça doer. Cola! Cheiro de cola. Ele cheira cola à vista de todos passageiros. Reclamo. Absurdo! Saio de perto do cheiro impregnado. Meu Deus, apenas um menino.Ele se revolta, faz sinal. O motorista pára. Ele se dirige à porta, gira para mim e grita: Loira burra, loira burra!
O "hoje" está assim, gerando garotas iludidas com as velhas fábulas, a espera das "fadas madrinhas" para as arrancarem da dura realidade vivida em casa; meninos ainda ignorantes, que picham o nome PCC nas fachadas, possíveis futuros recrutas de facções criminosas. E desiludidas como eu, que precisa parar de assistir ,e atuar; na tentativa de que esperança realista chegue à vida dessas pessoas.
Escrito por Donna Oliveira às 02h24
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