Um ventinho quente e úmido toma o meu ouvido. Uma sensação áspera toca o meu delicado pescoço. Um lívido braço me envolve. Um corpo longilíneo laça-me de tal forma que parece me fundir. Movimentos leves e cuidadosos me acordam de uma espécie de devaneio. Teus pés nos meus. Tuas pernas entre as minhas. Dedos entrelaçados. Corpos juntos... almas distantes.
O giro do ventilador toca a nossa sonata, que se contrapõe com o ritmo da tua respiração constante. Os compassos do teu coração dão o toque especial à banda formada por toques, suspiros, ruídos e pensamentos. O abajur de luz vermelha proporciona o efeito meia-luz ao nosso show.
- Show ou guerra?
- Teatro ou jogo?
- Seríamos nós um espetáculo?
A tua parede branca nos assiste impassível. Os teus livros nos observam emudecidos. Os olhos do retrato dizem algo que não desvendo. O crucifixo remete-me à santidade não existente entre nós, seres carnais. A cama, o criado-mudo, a porta, o chão talhado em madeira, os jornais espalhados, o resto da essência das outras mulheres que por ali passaram – e passam, o tic tac do relógio, o som badalado em minha cabeça, todos eles formam o público da nossa desenvoltura.
O dia cai sobre as folhas que farfalham ao lado da tua janela. Uma visão embaçada do mundo exterior paira sobre meus olhos. O sol grita e nós, distantes, absortos em nós mesmos, nos aninhamos e adormecemos.
E por um triz sonhamos... e por um triz nos absorvermos... e por um triz quase existimos.
Escrito por Donna Oliveira às 12h12
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O ar quente e úmido é tomado por um odor confuso e sufocante. Uma mistura de cevada, álcool, vodka, suor,couro, monóxido de carbono e peles. Diversos aromas se fundem num só: nauseante.
A melodia ambiente é composta por buzinas, músicas diversas, gritinhos exultantes, batidas de corações extasiados, discussões e melôs de guerra bestiais.
Engarrafamento infernal. Pessoas saindo dos carros continuam a trajetória a pé. Ambiente confuso... indescritível. Uma massa de jovens se encaminha desorganizadamente à mesma celebração.
O que levaria tantos a se reunirem animadoramente em um número assustador? A resposta é óbvia:
- O culto à futilidade.
Alienados com as modinhas capitalistas que visam lucros dessa geração desenfreada, a juventude segue sem singularidade a vulnerabilidade de suas ações. Acham-se obrigados a digerir todos os tóxicos que lhes são lançados e vivem com a eterna e famosa crise de identidade – isso quando resolvem parar para olhar para dentro de si.
Num aglomerado humano onde mal é possível fazer um movimento de cabeça por causa da insuficiência de espaço físico, lá estão eles, mãos erguidas, corpos roçando, suores se misturando; cantando a inutilidade.
Eis a sua composição: desejos inúteis, sonhos fúteis, crenças indefinidas, instabilidade, falta de propósito, sentimentos contraditórios e modismos.
Tom Zé acredita na mudança. Levado por uma pesquisa feita pela MTV que revelou uma forte tendência do jovem para o consumismo, hedonismo, fuga da responsabilidade social ou solidariedade, resolveu lançar um cd numa espécie de intimato à essa mocidade para um retorno às raízes.
Vou ouvir incansavelmente "Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício", para ver se me convenço de que existe solução para o provável futuro pífio da minha geração perdida.
Escrito por Donna Oliveira às 14h48
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