Meus pés, envoltos pela atmosfera, não tocam mais o chão. Para aumentar minha sensibilidade, cerro os olhos bem apertados, estico os braços e abro as mãos. Vôo.
No momento em que dou o primeiro passo, aquele do risco inicial, um friozinho arrepiante me percorre todo o corpo. Sinto-me revigorada. Tomo coragem e ousadia como lema.
Visto um vestido leve para embelezar o meu salto de libertação dos paradigmas. Olho pra você, profundo. Envolta por uma totalidade, seduzida pelo novo e, descalça como num ritual sagrado, estranhamente feliz lanço-me.
Enquanto corto o ar, sinto o aroma da nova experiência e o frescor da minha audácia. Contenho uma leveza na alma. As bactérias do ar me acariciam. O vento me renova. O universo me acolhe. Dou piruetas e cambalhotas feito criança – menina mulher. Sorrio para o meu momento. Sem perder o rumo, de olhos bem fechados, me transporto a você.
Meus pés, envoltos pela atmosfera, não tocam mais o chão. Para aumentar minha sensibilidade, cerro os olhos bem apertados, estico os braços e abro as mãos. Vôo... e caio. Espatifo-me em você. Não enxerguei a tempo que a sua profundidade era na verdade uma depressão e os seus olhos dois abismos obscuros.
Você é uma armadilha que me seduziu, me capturou e quando, na minha aventura, resolvi abrir os olhos, já havia caído. Estava encolhida no chão, machucada, juntando os cacos do que outrora era eu, quando caminhava com os pés protegidos no chão e os olhos abertos no caminho – lúcida.
Recomponho-me. Reúno forças das dores. Emplasto as feridas. Caqueticamente subo os escombros do abismo e chego ao conforto do enclausuramento da minha nova e velha prisão. Protegida.

Escrito por Donna Oliveira às 20h19
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