O Homem que não Sentia
Não, ele não é um “homem blefe”. Tão pouco um farsante. Não, ele também não é negativo, talvez tenha doses de antagonismo, ambigüidade, incógnitas; o que o tornam no mínimo positivamente curioso.
Para falar dele não se pode usar o coração, é necessária observação racional e um pouquinho de admiração, ou apenas curiosidade. Não quero fazer com que o amem ou odeiem. Cada qual com a sua concepção final. O meu intuito é “destrinchá-lo”.
Logo que o conhecemos, ele aparenta ser um tipo comum masculino... isso até ele dizer: “Não se apaixone, não se envolva demais”. Banho de água fria? Blefe? Que nada. Esse é o seu modo mais peculiar de ser estimulante e envolto numa aura de mistério. E nós nos perguntamos intrigados porque esse homem não sente, não se envolve, não se doa. Para alguns esse é o fim da linha: que puta homem egoísta! Para os persistentes é só o início da descoberta de algo deliciosamente obscuro por trás da sua armadura quase intransponível.
O homem que não sentia caminha como se estivesse em campo minado. Diverte-se com os joguinhos que jura não gostar. É sagaz. Inteligente. Ao mesmo tempo em que parece palpável... pluft! Vira pó e cai entre os dedos. Audacioso, não?
O vinho contém segredos que o definem bem. Quando entramos na descoberta da bebida mágica, o sabor inicialmente parece simples. Não temos tato nem experiência para apreciá-lo. Como leigos, não temos noção da sua profundidade. Com sucessivas degustações descobrimos cantinhos recônditos, novos sabores, diferentes cores, cheiros suaves e consistentemente inebriantes. Obtemos sensações diversas a cada gole. O seu sabor pode ser em diferentes faces: doce, seco, açucarado, forte, singelo, ácido e leve.
Como o vinho, este homem se revela aos poucos. Aprecia-se aos poucos. Descobre-se aos poucos. Esse é o motivo por logo ter justificado que ele não é um “homem blefe”. No início ele se auto protege e assusta, para posteriormente em doses homeopáticas tornar nua sua sensibilidade camuflada. Tornar transparente sua carência tímida e desajeitada. Tornar visível seu olhar carinhoso. Tornar verdadeiras suas demonstrações de carinho. Tornar espontâneo seu lado moleque. Tornar-se um vício.
Nada de divagações e vislumbres. Não o inclua em seus sonhos catatônicos. Ele não é o homem perfeito. Nem um modelo a ser seguido. Ele é singular. Seu jeito único que o faz um ser admirado. Ele é um risco, uma catástrofe, um contraste, uma aventura, uma descoberta, um clímax, um bem, um mal... uma antítese.
O homem que não sentia, sentiu. Por um instante a armadura caiu. Experimentou a fragilidade da sensibilidade e se recompôs. Vestiu cada peça novamente, desafiando a vulnerabilidade da sua razão.
Escrito por Donna Oliveira às 23h32
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